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01/03/2010 - 11:25:10
Título: O cinema de autor fora do armário
Fonte: O GLOBO

CCBB faz retrospectiva da alemã MonikaTreut, ícone da cultura LÉSBICA no audiovisual europeu

Rodrigo Fonseca

Ícone do cinema GLS na Europa, ao simbolizar a afirmação do lesbianismo, a cineasta alemã Monika Treut, cuja obra será integralmente apresentada de amanhã a 14 de março no Centro Cultural Banco do Brasil, fará de sua vinda ao país algo mais do que uma cruzada pela diversidade sexual. Sua missão carioca é compreender que espaços o mercado exibidor reserva para filmografias independentes de grandes estúdios.

- Hoje, o cinema ocidental já aprendeu a absorver melhor personagens homossexuais.

Ainda assim, é mais comum vermos gays, pois, até hoje, as mulheres, lésbicas ou não, são tratadas como se fossem cidadãs de segunda classe. Basta ver quantas mulheres cineastas se destacam. Por isso, fico feliz em ver Kathryn Bigelow (de "Guerra ao terror") ganhar prêmios como o Bafta e disputar o Oscar - diz, ao telefone, a realizadora de longas como "Fantasma" ("Ghosted", 2009), politizada love story entre uma alemã e uma taiwanesa, que terá sessão na quarta-feira, às 19h30m. - Há a questão da afirmação feminina, mas há outras, igualmente sérias, no cinema.


Reflexões sobre alternativas de exibição na web e resistência cultural prometem ser a tônica da mesa-redonda da qual Monika participará no sábado, às 17h30m. Conversam com ela os cineastas brasileiros Malu de Martino ("Mulheres do Brasil") e Roberto Berliner ("Herbert de perto").

- Vivemos tempos estimulantes para a criação artística.

Mas são tempos em que temos filmes demais e espaço em cinema de menos. Antes da internet, filmes como os meus só circulavam, com garantia, por festivais. Mas ainda é preciso ocupar melhor os nichos digitais, o YouTube - diz a cineasta de 55 anos.

Sua estreia na direção aconteceu em 1985, com o longa "Sedução: a mulher cruel", que esbanjou polêmica ao abordar o dia a dia de perversidades de uma dominatrix sexual. Agora, Monika luta por uma maior visibilidade para filmes autorais.

"Sedução" terá sessão nos dias 11 e 13. Na abertura, amanhã, às 17h30m, será exibido " Meu pai está chegando" (1991), sobre uma jovem que esconde da família sua homossexualidade.

Em seguida, às 19h30m, a diretora sobe ao palco para apresentar "Tigresas asiáticas criam asas" (2005). O filme reúne depoimentos de três artistas nascidas na Ásia - uma cantora de ópera, uma escritora e uma cineasta - sobre as contradições do continente na atualidade.

Falando de contradições, políticas, econômicas ou sociais, Monika solta toda a sua poesia no documentário "Guerreira da luz", agendado para quinta-feira, às 17h30m. Rodado no Rio, o filme fala da artista plástica Yvonne Bezerra de Mello e sua relação com crianças de rua.

Monika sempre ergueu com elegância a flâmula da recontextualização da cultura LÉSBICA na dramaturgia audiovisual. Já Rosa von Praunheim (pseudônimo de Holger Michwitzky), de filmes como "O Einstein do sexo" (1999) e "Um vírus não conhece moral" (1985), é famoso por intervenções públicas escandalosas e por filmes sobre AIDS.

Monika vê no colega um sopro de inquietação que parece desgastado na Alemanha.

- Praunheim e eu somos muito comparados porque investimos em documentários em uma época em que o cinema alemão se preocupava mais com a ficção. Mas, quando se fala da questão GLS, a verdade é que o movimento gay alemão anda muito monótono. Há uma figura importante, o cartunista Ralf König (autor da HQ "O homem mais que desejado"). Mas, fora König, há uma palidez de ação que contrasta com as transformações mais radicais que vemos, por exemplo, nos EUA - diz Monika, elogiando cineastas que filmaram o amor entre iguais com autoralidade.

- Almodóvar sempre foi uma inspiração para mim, com seu senso de humor. Já Gus Van Sant é um diretor mais sombrio.

Mesmo assim, ele conseguiu encontrar um modo muito particular para retratar o lado mais obscuro da sexualidade.







       
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